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Quatro pneus e tantas histórias

January 12th, 2007

Em posts anteriores já deixei claro que a razão da existência deste blog foge a questões particulares, quero que seja algo bem maior que isso, mas não posso deixar de comentar uma experiência vivenciada hoje.
Estava voltando do trabalho e por não ter saído cinco minutos antes ou cinco minutos depois, consumou-se o sincronismo necessário para que estivesse onde uma Hilux avançou a preferencial atingindo levemente a parte lateral traseira do meu carro. Poderia ter sido um dia como qualquer outro, mas não foi. O script após este tipo de situação é conhecido: Desliga o carro, liga o pisca alerta e desce do carro com certo ar de superioridade, alguma imponência e uma segurança em si que só é alcançada após um rápido ensaio no retrovisor.
Não precisava de tanta astúcia pra perceber que a Sra. Mazarela estava mais nervosa do que eu, um tanto quanto ‘abatida’ e desconfortável, me pedindo desculpas e repetindo duas vezes baixinho a expressão “e agora?” perguntei logo se ela tinha seguro (afinal era uma Hilux) e ela reagiu como se só tivesse lembrado que tinha seguro após minha pergunta - tão distante estava. Conversei com o Luciano, seu corretor, e com certa resistência minha, marcamos pela tarde na Ceará Motor. Claro, que eu preferia que fosse chamada a perícia, mas além de preferir contornar toda essa burocracia e talvez pela Sra. Mazarela ser uma promotora de justiça ou porque ela estava cabisbaixa e constrangida pelo próprio erro fiquei a vontade em aceitar a proposta do corretor.
Até aí tudo normal, acredito que tudo dentro de uma realidade previsível, não fosse a Sra. Mazarela olhar pra mim chorosa e pedir desculpas pelo contratempo e me abraçar dizendo que estava com a cabeça distante, pois hoje era o aniversario de seu marido, falecido a pouco mais de uma semana… Foi entrando no carro e insisti que ela esperasse, tomasse um copo d’água, perguntei se ela sentia-se realmente bem para dirigir e apelei para que ela ficasse mais um pouco. Ela entrou no carro e olhou para o próprio colo contendo as lágrimas. Fui ao meu carro e saí dali, provavelmente bem mais distante do que estava a dona Mazarela antes de atingir-me, neste momento percebi que não foi apenas com o meu carro que a dona Mazarela colidiu, mas acho que o maior impacto foi em minha consciência… E naquele momento aquele pequeno amassado, perdeu toda a sua importância. O choro agora era o meu.

A forma como normalmente estamos alheios aos problemas das outras pessoas é uma realidade que cada um deve procurar saber quando e o quanto mudar, e colocar isso em prática a medida do possível ao invés de ficarmos vagando na vastidão infinita do nosso próprio eu.

Apesar de estarmos conscientes todo o tempo sobre a fragilidade da vida, em alguns momentos, como este, essa fragilidade é mais evidente e hoje apenas queria que todos aqueles que amo soubessem o quão intenso e espontâneo é este amor independente do que aconteça.

Grande abraço a todos.

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  1. Anonymous
    January 15th, 2007 at 07:06 | #1

    Caramba Joel. As vezes não reparamos realmente na vida da outra pessoa.. É um egoísmo que todos temos, porém são quase exceções as pessoas que vêem, mesmo depois de contratempos, esse lado… Ainda mais com prejuízos materiais..

    Vc faz parte dessas pessoas..

    Danilo Brito
    danilo.ceara@gmail.com

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