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Família tem de ser careta

29 junho 2007 45 views Sem Comentários Enviar por e-mail
Tive uma grande surpresa ao assistir o programa Hoje Em Dia da Record quando foi noticiado que cinco jovens universitários espancaram e roubaram uma doméstica na madrugada de sábado. O que mais me surpreendeu foi saber que eram cinco universitários, pessoas que passaram quase vinte anos sendo instruídos em ótimas escolas. Levando em consideração que os jovens são de bairros nobres e seus pais, com seus fartos salários, certamente poderiam prover com facilidade suas necessidades, questiono-me o real motivo desses jovens para descarregar tanta violência em uma pessoa (Sirley) que queria uma única coisa apenas, trabalhar.Onde erramos como família? Como sociedade e seres-humanos? Será que o sistema de ensino atual está realmente ensinando o mais importante aos jovens de hoje, onde estão os valores? Três destes jovens que espancaram covardemente uma mulher indefesa alegaram que pensavam tratar-se de uma prostituta (um deles cursa direito, quanta ironia) , será que antes de socar e dar ponta pés no rosto desta mulher eles ao menos se preocuparam em perguntar? E mesmo que ela fosse prostituta, estaria tudo bem? Como se uma prostituta não fosse mais um ser-humano lutando para prover-se das necessidades básicas de qualquer um.O pai de um dos “garotos” disse em uma entrevista que era apenas crianças e que não fizeram por mal. Uma pena ele perceber, mesmo que em silêncio e tardiamente, que não são crianças… São monstros e como tal devem permanecer atrás de grades. Só espero que o dinheiro destas famílias não fale mais alto que a dor que essa mulher inocente sentiu e o caso seja abafado por uma justiça imoral e peçonhenta.
Finalmente, abaixo segue este excelente texto de Lya Luft, entitulado “Família tem de ser careta” (Revista Veja, Ponto de Vista, 14 fevereiro 2007, pg 18).
Esperando uma reação de espanto ou contrariedade ao título acima, tento explicar: acho, sim, que família deve ser careta, e que isso há de ser um bem incomparável neste mundo tantas vezes fascinante e tantas vezes cruel. Dizendo isso não falo em rigidez, que os deuses nos livrem dela. Nem em pais sacrificais, que nos encherão de culpa e impedirão que a gente cresça e floresça. Não penso em frieza e omissão, que nos farão órfãos desde sempre, nem em controle doentio - que o destino não nos reserve esse mal dos males. Nem de longe aceito moralismo e preconceito, mesmo (ou sobretudo) disfarçado de religião, qualquer que seja ela, pois isso seria a diversão maior do demônio.
Falo em carinho, não castração. Penso em cuidados, não suspeita. Imagino presença e escuta, camaradagem e delicadeza, sobretudo senso de proteção. Não revirar gavetas, esvaziar bolsos, ler e-mails, escutar no telefone, indignidades legítimas em casos extremos, de drogas ou outras desgraças, mas que em situação normal combinam com velhos internatos, não com família amorosa.
Falo em respeito com a criança ou o adolescente, porque são pessoas, em entendimento entre pai e mãe - também depois de uma separação, pois naturalmente pessoas dignas preservam a elegância e não querem se vingar ou continuar controlando o outro através dos filhos.
Interesse não é fiscalizar ou intrometer-se, bater ou insultar, mas acompanhar, observar, dialogar, saber. Vejo crianças de 10, 11 anos freqüentando festas noturnas com a aquiescência de pais irresponsáveis, ou porque os pais nem ao menos sabem onde elas andam. Vejo adolescentes e pré-adolescentes embriagados fazendo rachas alta noite ou cambaleando pela calçada ao amanhecer, jogando garrafas em carros que passam, insultando transeuntes - onde estão os pais?
Como não saber que sites da internet as crianças e os jovenzinhos freqüentam, com quem saem, onde passam o fim de semana e com quem? Como não saber o que se passa com eles? Sei de meninas, quase crianças, parindo sozinhas no banheiro, e ninguém em casa sabia que estavam grávidas, nem mãe nem pai. Elas simplesmente não existiam, a não ser como eventual motivo de irritação.
Não entendo a maior parte das coisas solitárias e tristes que vicejam onde deveria haver acolhimento, alguma segurança e paz, na família. Talvez tenhamos perdido o bom senso. Não escutamos a voz arcaica que nos faria atender as crias indefesas - e não me digam que crianças de 11 anos ou adolescentes de 15 (a não ser os monstros morais de que falei na crônica anterior) dispensam pai e mãe. Também não me digam que não têm tempo para a família porque trabalham demais para sustentá-la. Andamos aflitos e confusos por teorias insensatas, trabalhando além do necessário, mas dizendo que é para dar melhor nível de vida aos meninos. Com essa desculpa não os preparamos para este mundo difícil. Se acham que filho é tormento e chateação, mais uma carga do que uma felicidade, não deviam ter tido família. Pois quem tem filho é, sim, gravemente responsável.
Paternidade é função para a qual não há férias, 13º, aposentadoria. Não é cargo para um fiscal tirano nem para um amiguinho a mais: é para ser pai, é para ser mãe. É preciso ser amorosamente atento, amorosamente envolvido, amorosamente interessado. Difícil, muito difícil, pois os tempos trabalham contra isso.
Mas quem não estiver disposto, quem não conseguir dizer “não” na hora certa e procurar se informar para saber quando é a hora certa, quem se fizer de vítima dos filhos, quem se sentir sacrificado, aturdido, incomodado, que por favor não finja que é mãe ou pai. Descarte esse papel de uma vez, encare a educação como função da escola, diga que hoje é todo mundo desse jeito, que não existe mais amor nem autoridade… e deixe os filhos entregues à própria sorte. Pois se você se sentir assim, já não terá mais família, nem filhos, nem aconchego num lugar para onde você e eles gostem de voltar, onde gostem de estar. Você vive uma ilusão de família. Fundou um círculo infernal onde se alimentam rancores e reina o desamparo, onde todos se evitam, não se compreendem, muito menos se respeitam.
Por tudo isso e tudo mais, à família moderninha, com filhos nas mãos de uma gatinha vagamente idiotizada e um gatão irresponsável, eu prefiro a família dita careta: em que existe alguma ordem, responsabilidade, autoridade, mas também carinho e compreensão, bom humor, sentimento de pertença, nunca sujeição. É bom começar a tentar, ou parar de brincar de casinha: a vida é dura e os meninos não pediram pra nascer.”

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