Fumar é um hábito que morreu socialmente, tanto quanto usar chapéu ou cuspir em escarradeiras. O mundo está dividido em ex-fumantes e gente que nunca vai colocar um cigarro na boca. O grupo dos ex-fumantes é composto também de ex-boêmios, ex-românticos, ex-poetas, ex-artistas. Gente que já fumou muito e parou.
E que, coincidência ou não, também parece já ter vivido seus melhores dias. Apesar de terem hoje dentes mais brancos e uma pele melhor, os neocaretas exalam um pouco o ar daquelas pessoas que já foram mais relevantes e mais felizes.
Como o mundo desembocou nessa rua sem saída para o cigarro? Ao longo de um século, fumar foi um hábito para lá de aceito: era um rito de passagem desejado, um gesto de glamour cultuado, quase um sinal de normalidade – esquisito era o sujeito que não carregava um maço no bolso. O cigarro era um companheiro que inspirava, consolava, ajuda a celebrar momentos bons, redimir passagens ruins e trafegar por horas solitárias. O cigarro estava na televisão, no cinema, nas revistas, nas crônicas de Rubem Braga e de Nélson Rodrigues. Estava em todo lugar: na sala de casa, no consultório médico, nos elevadores, na boca dos pedreiros e dos banqueiros.
Para quem nasceu ontem, no entanto, fumar é apenas um ato vergonhoso, quase uma fraqueza moral. O fumante é visto como um viciado, um doente, alguém que incomoda. O golpe derradeiro é a recente proibição do cigarro nos cafés franceses – ícone máximo daquela imagem idílica do cigarro como universo temático, como dimensão estética. Até isso está virando fumaça.

Alguém dirá que o grande responsável por essa derrocada é o câncer. Acredito que o carcinoma – para não falar no mau hálito – tenha sua parcela de culpa. Mas acho que há um fator ainda mais forte para o banimento do tabaco. Trata-se do espírito hedonista do cigarro, que perdeu o lugar neste mundo prático, financista e sem graça em que vivemos. O algoz do fumacê não é a medicina: é o puritanismo.
O cigarro é uma auto-indulgência num mundo que cobra estoicismo a todo momento. O cigarro é uma pausa, um tempo que dedicamos a nós mesmos, num mundo acelerado, em que o tempo não nos pertence mais. O cigarro é uma pequena transgressão num mundo cujas engrenagens não permitem desobediência. O cigarro é uma irracionalidade num mundo regido pela correção política. O cigarro é um prazer solitário, sujo, fora da lei, num mundo grandemente asséptico e moralista. O cigarro tem um quê de lassidão e poesia – e não há mais lugar para isso. Eis o que eu lamento: o cigarro está desaparecendo muito mais pelo que ele traz de bom ao espírito do que pelo que faz de mal ao corpo. Por tudo isso, desconfio que o mundo fica um lugar pior sem o cigarro.
Fonte: Adriano Silva para a Revista Época.













Sem dúvida faço parte ao grupo descrito no primeiro parágrafo. De ex-fumantes que passam a ser ex-pessoas. E o mundo realmente deixou de ser colorido, glamouroso e engraçado ao parar de fumar.
Eu não acredito que li isso. Como um produto que mata uma pessoa a cada 6 segundos pode ser colorido ou interessante?
Bem que podia ser verdade isso, o cigarro poderia desaparecer do mundo. Se assim fosse automaticamente teríamos 3,5 milhões menos mortes por ano. Menos lagrimas, dores, perdas e sofrimento.
Pois o cigarro nada mais é que um pedaço de papel enrolado com fumo dentro, fumaça de um lado e um idiota do outro.
Nat,
Olha só que coincidência, também não acredito que você leu. Mas… presumindo que você tenha lido na íntegra, considero plausível recomendar-lhe mais duas ou três leituras já que até então você não compreendeu a mensagem contida no texto.
Fumar nunca foi e nunca será algo correto, mas é uma escolha. Se essa escolha, dentro do seu vago conceito, define um idiota, você poderia adicionar a sua lista de idiotas homens como Vinícius de Moraes, Albert Eistein, Machado de Assis, Chico Buarque. Tem também um sujeito, mais um desses degenerados, chamado Alexander Fleming. Foi o idiota que descobriu a penicilina. Isso data de 1928, mas, sendo um idiota, não podemos confiar nossa saúde ou de nossos filhos em sujeito como esse. Quem sabe devamos levar a uma rezadeira, não fumante é claro.
Hahahahaha! Joel meu brother!! Assino em baixo o que tu escreveu e ainda complemento com uma lista com mais de 1.000.000 de nomes de gente idiota, sem força de vontade, fedorentas, egoístas e tudo o mais que a Nat e mais alguns defensores do clube “por um mundo sem tabaco” esquecem ou simplesmente não conhecem e que apesar de aniquilar suas vidas através de um pedacinho de papel com fumo dentro contribuíram ou até mesmo inventaram o que chamamos de mundo moderno de hoje.
E só pra constar, cansei de ser triste, voltei a fumar.