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Pierre Lévy e a nova mídia

September 2nd, 2008

Passaram-se algumas semanas desde que comecei a dedicar algum tempo livre estudando descompromissadamente os trabalhos de Lévy e quanto mais eu mergulho em sua obra mais impressiono-me com a lógica e coerência de seu trabalho. Lévy, nascido na Tunísia em 1956, reside hoje em Ottawa onde realiza desde 2002 uma pesquisa sobre inteligência coletiva. Um conceito criado por ele mesmo, sendo caracterizado por um novo tipo de pensamento sustentado por conexões sociais que são viáveis através da utilização das redes abertas de computação da Internet. Pierre Lévy fez mestrado em História da Ciência e Doutorado em Sociologia, Ciência da Informação e também em Ciência da Comunicação em Sorbonne, França.

Pierre defende, entre outras coisas, um melhor aproveitamento dos recursos disponíveis hoje na hora de promover a informação. Os profissionais das áreas de comunicação devem ter em mente que a Internet consolida-se como a nova mídia. Centralizando em um único veículo o entretenimento da televisão somados aí uma gama de recursos como animações, charges, vídeo, fotografia, audio e uma interatividade jamais comparada a qualquer outro meio de comunicação. Segundo Pierre:

“(…) a digitalização permite associar na mesma mídia e mixar finamente os sons, as imagens animadas e os textos. (…) o hipertexto digital seria, portanto, definido como uma coleção de informações multimodais dispostas em rede para a navegação rápida e intuitiva”

Todo esse conjunto de recursos disponíveis na hora de promover a informação desafiam hoje o modo de se fazer jornalismo. Mesmo submergidos em novas tecnologias, o que vemos hoje é uma transposição do conteúdo impresso para o online sem o devido aproveitamento dos recursos que a nova mídia oferece.

O certo é que se o fraco consumo de jornais se deve substancialmente à concorrência da televisão - que complementa as notícias com as imagens e sons sobre o que passou ou está a passar no local da notícia - é o jornal que continua a ser o melhor meio para quem quer aprofundar as notícias (…) Uma publicação online pode ser uma forma de fundir as vantagens de um e outro meio, complementado os textos com vídeo, áudio, sem desvalorizar o seu conteúdo e até o alargando a todo o tipo de informação que um jornal tradicional, por limitações de espaço, não pode oferecer a seus leitores.

O jornalismo hoje está em crise, pois o modelo tradicional onde a informação de qualidade era centralizada está obsoleto. Hoje colunistas viraram blogueiros e neste cenário o papel dos jornalistas deixou de ser o de especialista, aquele que detém o conhecimento, passando a atuar como mais uma conexão em uma sociedade que atua em rede.

Segundo Pierre Lévy as alterações na forma de coletar e arquivar informações vêm sendo freqüentemente percebidas em termos de uma ameaça ao impresso, aparentemente em vias de desaparecer, diante das possibilidades oferecidas pelo meio eletrônico. Enfrenta-se a ameaça ora em termos de glorificação, ora do exorcismo do computador, normalmente expressos sem a preocupação com um questionamento mais rigoroso do clássico postulado apocalíptico expresso na fórmula ceci tuera cela. Trata-se, em Notre-Dame de Paris, da frase pronunciada por um clérigo que, ao abrir a janela de seu claustro, volta os olhos para a catedral parisiense e, logo a seguir, para o livro aberto sobre a mesa, e lamenta: isto destruirá aquilo. A frase retorna insistentemente em discussões sobre as possíveis conseqüências do advento do texto eletrônico para o texto impresso.

Hipertexto no ponto de vista de Pierre Lévy

Em nosso processo de inclusão digital aprendemos desde cedo que Hipertexto é a mesma coisa que Hiperlink ou simplesmente link. Uma determinada palavra ou imagem que têm a função de interconectar os diversos conjuntos de informação. Lévy, diferentemente deste conceito popular, parte da idéia de que o hipertexto é uma definição anteriori às novas mídias, pois faz parte da própria lógica humana do pensamento. Este funciona de forma caótica, elaborando cognições que surgem por conexões. Ele cita como exemplo a frase “a maçã contém vitaminas”. Cada sujeito acaba lendo a frase a partir de múltiplas associações. Haverá aquele que associará a maçã como um recurso para se fazer uma boa dieta nutritiva e assim emagrecer. Um outro que vai se preocupar com os tipos de vitaminas encontrada no fruto e assim por diante.

Cada um busca contextualizar a frase de acordo com um conjunto de informações que detém. Logo, nenhuma mensagem tem um sentido muito preciso, pois cada sujeito relaciona o conteúdo da mensagem com as suas associações cognitivas. Assim, o hipertexto é sempre uma linguagem associativa não-linear.

Seu livro As tecnologias da inteligência caracteriza os hipertextos através de seis critérios:

  • Princípio da metamorfose: é o processo de constante construção e renegociação de sentidos que se dá nos hipertextos. A estrutura criada pode até permanecer estável durante um certo tempo, mas ela é sempre fruto de um trabalho em direção a uma estabilidade. Também a própria dinâmica da disseminação de informação, na web, faz com que os prazos de atualização sejam diminuídos. Há uma demanda social pela metamorfose. Há uma linguagem visual e um sistema de organização da informação, uma arquitetura de dados ainda em definição.
  • Princípio da heterogeneidade: tanto os nós, as informações organizadas em uma determinada seção de um hipertexto, como as conexões que se estabelecem entre as diversas partes dele, têm um caráter extremamente heterogêneo. Os dados são qualitativamente diferentes (imagens, sons, textos); não há uma padronização visual, o tipo de conexão que o leitor estabelece também passa por diversas razões como: critérios lógicos, afetivos, ocasionais, instintivos etc. Também as pessoas que interagem na Internet, são de diferentes procedências. Podem ser indivíduos isolados e até grandes empresas. Não há fronteiras nacionais. De certa forma, até os atributos físicos e sexuais de uma pessoa podem ser definidos, no âmbito do discurso.
  • Princípio da multiplicidade e de encaixe das escalas: o hipertexto se organiza de forma “fractal”. Cada nó ou conexão pode revelar toda uma rede de novos nós e conexões e cada novo nó pode apresentar um outro universo de conexões, e assim por diante. Os eventos veiculados pela Internet também têm uma capacidade de mobilização social diferente daquela possibilitada por outras mídias. Pequenos eventos podem ter grandes efeitos a partir de uma rede sinérgica, sensível e desterritorializada de correlação de informações feitas por usuários anônimos em todo o mundo. Um tipo de “efeito cascata”, uma progressão geométrica.
  • Princípio de exterioridade: Não há uma unidade, nem um motor próprio na Internet. Sua construção, definição e manutenção dependem de complexas e múltiplas interações, conexões entre pessoas e equipamentos. O fluxo constante de elétrons, de dados digitais, que mudam constantemente são incorporados e trocados a todo momento.
  • Princípio da topologia: nos hipertextos, tudo funciona por proximidade, por vizinhança. O curso dos acontecimentos é uma questão topológica, relacionada à construção de caminhos. “A rede não está no espaço, ela é o espaço”
  • Princípio da mobilidade dos centros: a rede tem uma estrutura rizomática, com múltiplos e móveis centros, que se organizam de acordo com o fluxo da narrativa e da leitura. A cada conexão desenham-se novos cenários de leitura com novos centros, novas possibilidades. A idéia da necessidade de um centro fixo para a organização da leitura é transferida para a idéia de que o leitor é o centro, o seu interesse, o seu tempo disponível, a sua cognição.

Três pontos importantes de sua teoria:

  • Universalização: Conceito que aparece com a criação da escrita, sua principal característica e o rompimento com o tempo e espaço, ou seja, as informações não estavam mais limitadas ao meio oral. Agora a escrita fixa a mensagem no papel e esta não fica presa nem a questões geográficas ou temporais, podendo chegar a qualquer lugar do planeta, universalizando a mensagem. Antes do surgimento da escrita, a forma de comunicação era oral, ou seja, o emissor e o receptor estavam inseridos no mesmo ambiente havia uma interação entre as partes. Consequentemente as informações e o conhecimento necessitavam de estar em um circulo oral, para não cair no esquecimento. Com a criação deste novo meio, surge uma nova forma de comunicação, com ela não há a necessidade do emissor e do receptor encontra-se no mesmo espaço físico ou temporal. Por outro lado, a escrita também criou o segundo conceito.
  • Totalização: A escrita possibilitou com que a interação que havia no meio oral deixasse de existir, com isso em um texto escrito há uma totalização, ou seja, somente o emissor e que fala, segundo o seu entendimento sem a possibilidade de interação do seu receptor. Da mesma forma, os meios de comunicação de massa seguem este regime totalitário, onde não existe espaço para uma interação e há uma forma linear e pré-determinada de raciocínio. Com a Internet, a universalização continua, todavia, por outro lado, a totalização some, pois neste meio a interatividade é contínua, ou seja, não há mais um saber autoritário, monolítico e centralizado.
  • Virtual/Atual: O conceito de virtual é amplamente pensado como desprovido de realidade. Lévy nos mostra que essa visão é errônea já que o virtual é real e não se opõe ao mesmo, ainda que não esteja nas categorias de tempo e espaço (é desterritorializado e atemporal). Segundo Deleuze o virtual é real sem ser atual. Podemos pensar Virtual como uma problemática sem forma definida e o atual como a resposta a essa problemática. O exemplo dado pelo próprio Lévy é que “o problema da semente…” “é fazer brotar uma árvore. A semente é um problema mesmo que não seja somente isso. Isto significa que ela “conhece” exatamente a forma da árvore que expandirá sua folhagem acima dela.”(O que é o virtual,1998). Um exemplo prático da falta de território e tempo da virtualidade pode ser dado por uma conversa por telefone ou por MSN. Qual é o lugar onde acontecem essas conversas? Digamos que as duas pessoas que se comunicam estejam em pontos opostos do globo, qual seria a hora? A resposta é em qualquer lugar e a qualquer tempo. Assim como ocorre com o acesso a qualquer arquivo da Internet, você pode ler este texto em qualquer lugar e a qualquer tempo.

Abaixo, dois excelentes livros de sua autoria:

  Pierre Lévy - O que é virtual? (668.5 KiB, 196 hits)

  Pierre Lévy - Cybercultura (10.0 MiB, 378 hits)

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